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21.5.17

Six months ago today

Há seis meses atrás, no dia de hoje, o sol decidiu aparecer por entre as nuvens no céu da Irlanda. Há seis meses atrás, filmei aqueles que foram os últimos segundos que passei naquela pista de aeroporto que tantas e tantas vezes tratei por 'tu'. Passou meio ano desde então e, embora esta tenha sido ainda a última vez que tive todo aquele verde no meu horizonte, posso dizer que Dublin terá sempre um lugar especial no meu coração. Já estive em muitos sítios, vi muitas cidades novas desde então, mas Dublin será sempre o sítio onde embora o inverno seja mais longo, o verde também é mais verde, o outono é mais outono e o verão fica mais fácil. Dublin será sempre o sítio onde tudo começou. E uma parte de mim vai sempre estar lá. O nosso caminho somos nós que o escolhemos. E eu não me arrependo nem por um minuto de ter escolhido um caminho que me tenha levado até aquela cidade mais - tão - a norte. Hoje percebo, embora na altura não o soubesse, que muito do que sei e sou hoje, aprendi-o ali. O preço dos sonhos paguei-o alto ali. As mais pesadas lágrimas chorei-as ali. E Portugal nunca me soube tanto a casa como quando fui para ali. Andei na melhor escola de aviação. Saiu-me a ferros. Deitou-me ao chão várias vezes. Irritou-me. Desgastou-me. Levou-me ao limite e testou-o. Fez-me duvidar se o teria em mim várias vezes. Mas não saberia metade do que sei hoje se não tivesse passado por isso. Ainda hoje, tantos meses depois, me baseio em coisas que aprendi ali para tomar decisões. Por isso, quando me perguntam como foi trabalhar para aquela famosa companhia aérea azul e amarela da qual se ouve muito mal e pouco bem, a minha resposta é invariavelmente esta: se queres ficar nesta coisa da aviação durante algum tempo, então vai. Não vais encontrar melhor escola do que aquela. Melhor preparação mental para os desafios do dia a dia do que aquilo. Não vais descobri o quanto gostas disto enquanto não enfrentares o bicho mais difícil durante uns meses. Vai. Começa por baixo. Baixa a cabeça e aprende. Aprende tudo o que puderes. Observa muito. Absorve tudo. Deixa que a experiência te molde. E um dia, quando descobrires que o tens em ti, levanta a cabeça e sai. Porque tu mereces melhor, mas em algum momento, aquilo foi o tudo o que tu precisavas. O caminho faz-se caminhando. Não queiras tudo duma vez. Eu não me arrependo nem por um minuto dos caminhos que me levaram uma vez até Dublin.
Há seis meses atrás, no dia de hoje, o sol decidiu aparecer por entre as nuvens no céu da Irlanda, e enquanto o avião cruzava aquelas nuvens e o sol batia mais forte na minha janela, eu soube: dificilmente algo me mudaria tanto como aquele ano que tinha passado. E por isso, quando a lágrima teimosa que eu estava havia horas a tentar prender, finalmente caiu, eu deixei-a cair, enquanto olhava uma última vez para a vista mais verde de sempre. E, ao contrário de muitas outras lágrimas que me caíram ali, grandes e dolorosas, aquela foi de alegria. Por me ter tornado na pessoa que queria ser.

20.11.16

Pessoas que mandam nestas coisas,

eu volto a dizer: isto de estar um frio de rachar só tem piada se nevar ok. estarem seis graus negativos só porque não tem interesse nenhum, nenhum.

13.11.16

Um ano nesta casa

e a lâmpada do candeeiro do meu quarto acabou de se fundir.

31.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte oito

na escola ensinaram-nos que devíamos escrever histórias com princípio, meio e fim. cabeça, tronco e membros. então perdoem-me porque o final desta história não me é conhecido ainda. mas sei que brevemente estas paredes cor de rosa vão deixar de ser minhas. sei que, brevemente, esta casa não mais será a minha casa. e sei que, brevemente, eu vou perder um bocadinho do mundo porque vou perder esta cidade. tomar decisões nunca foi comigo. eu tenho dificuldade até em escolher o que é que quero jantar, quanto mais o que é que quero fazer com a minha vida. tomar decisões é uma coisa que faz as minhas mãos transpirarem, a respiração acelerar e o meu humor ficar impossível. tomar decisões que tenham um grande potencial de mudar a minha vida, só agravam ainda mais esses sintomas.
exatamente há um ano atrás, quando soprava vinte e uma velas do meu bolo de aniversário, as minhas amigas do coração ofereceram-me um postal que - não me conhecessem elas tão bem - dizia a vida começa onde a tua zona de conforto acaba. esse postal está comigo desde o dia em que me fui embora. disseram-me elas que era um postal inspirador para momentos difíceis. desenganem-se já se estão a pensar que isso tornou a decisão mais fácil. uma ova é que tomou a decisão mais fácil. muita coisa boa vem das coisas fáceis. mas nada de fantástico. e às vezes o que nós precisamos é mesmo de qualquer coisa fantástica, ou com um enorme potencial de o ser, para dar a volta a tudo e pôr o mundo de pernas para o ar e fazer-te ficar acordada a noite toda a olhar para as estrelas no teto. eu não sei o que foi, talvez demasiada impulsividade - para variar - mas, naquele momento, não me apeteceu ignorar o que estava a pensar e o que a situação me fazia sentir. e então agarrei no telemóvel e respondi ao email. good evening, I'm very happy to accept your offer. e a seguir larguei o telemóvel e chorei. chorei porque esse foi o dia em que estas paredes cor de rosa deixaram de ser minhas. e caramba, se me tivessem dito isto há uns meses atrás eu tinha achado que estavam todos loucos, mas a verdade é esta: dificilmente vai haver uma cidade que signifique tanto para mim como esta, que me tenha dado tantas coisas como esta. e eu não anseio o momento da despedida.

parabéns manganet. a mim, aos meus vinte e dois, e a tudo o que esta cidade me deu. for better things to come.

30.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte sete

tudo mudou no dia em que, depois de uns dias em portugal, cheguei aqui e tinha um email à minha espera. o resto da história vocês já adivinham: de repente esqueci-me da parte do estar quieta e achei só mais uma tentativa também não pode fazer mal a ninguém. quando dei por mim tinha uma viagem marcada, já estava sentada no avião e passado o que me pareceu ser demasiado tempo, tinha uma camisa vestida e batom nos lábios e estava a fazer conversa de circunstância com um bando de desconhecidos. [essa parte da conversa de circunstância nunca foi o meu forte. fico sempre com a sensação que as outras pessoas dominam essa arte muito melhor do que eu]. mais uma vez dei por mim a voltar a esta cidade como se nada tivesse sido - ou pelo menos a tentar forçar-me a agir como se nada tivesse sido -, até que, mais uma vez, um email mudou tudo - ou quase tudo.

29.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte seis

mas claro que não era tudo perfeito, ou não estaria a contar esta história.
rapidamente percebi que gostava do trabalho que fazia mas não da forma que o fazia. achava acho eu. na minha cabeça eu achava que as coisas podiam ser melhores, que havia tanto espaço por onde as coisas podiam melhorar. tantos e se que gritavam dentro de mim à espera duma resposta. e então eu, como pessoa inquieta que sempre fui, não consegui ignorar essa urgência que sentia em experimentar coisas novas. se já tinha conquistado esta parte, porque não conquistar o resto? porque não tentar? curiosamente todas as tentativas que fiz saíram falhadas. todas as restias de esperança que podia ter eram completamente atiradas para o chão quando ouvia mais um não. e então eu parei. pensei que se calhar não era a altura para isso. que, se calhar, as coisas não precisam de ser sempre para ontem. que, se calhar, não devia querer já conquistar o resto. que, se calhar, aqui era onde eu devia estar.

28.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte cinco

e depois, como em tudo, houve aquele dia em que cheguei aqui e soube-me bem estar de volta. o cheiro do quarto. o barulho da cama. a forma das almofadas. nesse dia achei que estava onde queria estar. na altura não o interpretei dessa forma, mas agora, olhando para trás, sei que foi esse o dia em que estas paredes cor de rosa se tornaram as minhas paredes cor de rosa. continuei sempre a não sair tanto deste quarto como se calhar devia. mas agora já não era por a realidade ser demasiado pesada para a suportar, agora ficava porque sabia bem. sabia bem saber que, dentro destas paredes, eu tinha construído algo meu. tudo aqui tinha um significado para mim. era o meu mundo. o meu canto. o meu sítio. e agora eu pertencia aqui.

27.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte quatro

e eventualmente a realidade deixou de ser tão difícil de suportar. as lágrimas secaram e o pânico desta cidade tão tão longe de tudo o que eu conhecia encontrou um lugar sossegado dentro de mim. disse-o várias vezes: foi o inverno mais frio da minha vida. embora estivesse bastante frio lá fora, isso era só um pormenor desse inverno. mas foi nessa altura, no decorrer desses dias em que a realidade se tornou mais simpática, que eu percebi que, mesmo o inverno mais frio, ia chegar ao fim. e chegou. aos poucos o inverno foi acabando. tanto lá fora como cá dentro. e eu descobri que as paredes cor de rosa também me sabiam sorrir. que a minha manta também dava abraços quentinhos. desde essa altura e até começar a achar que este quarto me sabia a casa ainda se passaram muitos meses. longos meses. por essa altura era uma tortura voltar a casa, à casa onde sempre vivi. quanto mais lá ia, mais queria ficar e menos queria voltar. quanto mais lá ia mais percebia que devia ter ficado aqui. lembro-me de sentir que era como se não pertencesse a lado nenhum. aquele não era mais o meu espaço e constatar isso doía como se tivesse engolido um pedaço de carne demasiado grande, que magoa enquanto desce devagar pela traqueia. mas este também não era o meu espaço. este era só o sítio onde eu estava.

26.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte três

a primeira noite foi um desafio. as minhas malas pesavam à volta de trinta quilos cada uma e tive de subir dois andares com elas. precisava de dormir e não havia tempo para lavar os lençóis. dormir numa cama com lençóis por lavar foi provavelmente o maior desafio que tive de superar nessa semana. foi difícil mudar de casa enquanto trabalhava. sem dias de folga e com menos horas de sono do que as desejadas, era difícil conseguir realmente fazer a mudança. acho que me deve ter levado umas duas ou três semanas até conseguir esvaziar as malas e tirá-las do chão do quarto. o resto foi um processo gradual. levou meses até este quarto me saber a casa. as paredes cor de rosa olhavam para mim com um ar frio e, embora estivesse contente por termos conseguido a casa que queríamos, eu não queria estar aqui. sair de casa para ir trabalhar naquilo que durante tantos anos tinha esperado deixava-me empolgada. à noite, quando voltava a casa e me deitava, as paredes cor de rosa faziam a barriga doer. já o disse uma vez: estas paredes viram muitas lágrimas nos primeiros tempos. estas almofadas abafaram muitos gritos mudos e esta manta protegeu-me do papão debaixo da cama. embora me custe pensar sobre o assunto e, principalmente recordar essa altura, a verdade é que houve uns quantos dias - não muitos, felizmente - em que a realidade era demasiado triste para sequer ponderar sair da cama e enfrentá-la. e então eu fiquei. fiquei na cama dias inteiros a ouvir o vento uivar lá fora.

25.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte dois

e a festa que se seguiu. os saltos e os gritos no meio da cozinha. o coração a bater mais depressa. a casa era nossa. a casa. o resto da noite e o dia seguinte foram um desenrolar rápido de ações das quais não tenho qualquer recordação, afinal, finalmente tínhamos encontrado um sítio a que podíamos chamar nosso. o desafio seguinte foi a mudança. éramos quatro e entre nós contavam-se doze malas e mais uns quantos sacos. o corredor tornou-se demasiado pequeno com tantas malas. na verdade, tudo se tornou demasiado pequeno com tantas malas, principalmente a vontade de subir e descer escadas com elas. lembro-me do aperto de mão com o agente da casa e do momento em que eles nos passou a caneta para assinarmos o contrato. era oficial. estavamos em dezembro e estava um frio de rachar da rua. deixamos as malas todas no corredor [agora demasiado pequeno] e chamámos um táxi para ir ao centro comercial, que fechava dentro de duas horas. tínhamos duas horas para comprar tudo o que íamos precisar para sobreviver na primeira noite. duas horas mais tarde voltámos para casa, carregados de sacos, almofadas e edredons - umas quantas dezenas de euros mais pobres. e constatámos o que até aí tínhamos preferido ignorar: as malas não podiam ficar indefinidamente no corredor. ah, e constatámos também que estava na altura de tornar aquela casa a nossa casa.

24.10.16

Estas paredes cor de rosa, perdão, as minhas paredes cor de rosa, parte um

lembro-me do dia em que vimos esta casa pela primeira vez. de acharmos que a zona era um labirinto e que a estrada até aqui era assustadora. lembro-me de esperarmos ao frio pela hora da visita começar e para a porta se abrir. não me lembro ao certo quantas pessoas cá estavam mas lembro-me que a sala rapidamente se encheu, as portas abriam e fechavam, as pessoas subiam e desciam as escadas. lembro que quanto mais entravamos na casa, cada divisão que víamos, mais nós gostávamos dela. fomos embora e não nos calámos durante horas a falar sobre a casa. queríamos vir viver para aqui, estávamos completamente rendidos à casa. lembro-me daquela noite, sentados à mesa da cozinha da casa da senhora onde tínhamos alugado dois quartos, a comer cereais e a falar de quão stressante a procura de casa estava a ser. lembro-me do meu telefone ter vibrado em cima da mesa e de quando atendi, ouvi do outro lado hey, you can go grab the champagne, the house is yours.

3.9.16

Home standby

os meus colegas de casa estão no andar de baixo a cantar karaoke.

22.7.16

É por estas coisas que eu acho que era bem capaz de ser muito feliz nesta casa*

o meu quarto é tão longe da porta de casa que quando a campainha toca, se eu estiver a dormir com a porta fechada, não oiço nem acordo.

* não fossem alguns pormenores.

Se há coisa que gosto nesta terra

é que aqui os taxistas são [quase todos] muito simpáticos.

Há uns dias perguntaram-me se o verão é melhor aqui ou lá

na altura não soube o que responder. hoje, finalmente, descobri a resposta: o verão é mais verão lá, mas aqui, a vida no verão é mais fácil.

19.7.16

Li ontem no jornal que hoje ia ser o dia mais quente do ano aqui

ainda nem nove da manhã são e já estão vinte e dois graus, vinte e dois! É a loucura. Acordei com o meu quarto transformado numa pequena estufa.

21.6.16

Havia de ser assim mais vezes e eramos todos mais felizes

dos quatro habitantes desta casa, só cá estão dois. perfeito.

3.6.16

O ritual

cada vez que vejo anúncios de casa começo a ver casas que a minha carteira poderia pagar. concluo que não existe tal coisa, passo para ver casas que definitivamente a minha carteira nunca vai poder pagar mas são-tão-bonitinhas-que-não-resisto-a-ver-mais-fotos e termino a ver anúncios de estúdios e a perguntar-me porque é que não anunciam aquilo logo como sendo um cubículo.